A internacionalização de empresas e pessoas

Em 2016 eu e um colega da Escola de Direito da FGV em São Paulo publicamos um artigo científico em que examinamos a internacionalização da Construtora Odebrecht em Angola na década de 70. Nós a caracterizamos como um exercício de paradiplomacia empresarial. O grande papel da diplomacia no cenário internacional é reservado ao Estado e as Organizações Internacionais, contudo, observamos, a partir de exemplos como da Construtora Odebrecht e outras empresas que se seguiram, uma crescente importância das companhias como formadoras de laços entre os países e valores transnacionais.

Se por um lado a paradiplomacia empresarial ajudou os estabelecimentos de laços transnacionais entre as sociedades, por outro, ela se tornou inevitável no final da guerra fria, com a prevalência do modelo capitalista sobre o socialista (é claro que aqui cabe citar como exceção a China com o seu “socialismo com características chinesas”), dessa forma, acirrando a percepção da importância da dimensão econômica da globalização e aumentando a interdependência complexa entre os países.

Estes movimentos e seus efeitos que a expansão das atividades empresariais promovem um pressuposto básico de sobrevivência do modelo capitalista, em que o acesso ao mercado externo é imperioso para a sobrevivência do modelo e, em última análise, da própria empresa.

Boa parte dos movimentos de internacionalização de empresas transmitiu a falsa percepção para o empresário empreendedor de que 1) somente grandes empresas possuem a capacidade de iniciar a expansão para o exterior; e 2) os custos são muito altos para que as pequenas e médias empresas possam se beneficiar. Com isso, o empresário ficou preso ao mercado doméstico, que possui uma limitação natural de expansão e grande suscetibilidade às crises econômicas, enquanto observava as grandes empresas e negócios se beneficiando do mercado externo e com grande frequência da desvalorização do Real frente ao Dólar.

Some-se a estes obstáculos a questão cultural, que para o pequeno e médio empreendedor constitui uma barreira adicional a qual meu colega Ricardo Leite chama de barreira psicológica da internacionalização. Segundo ele, a fórmula para superar esta barreira é iniciar o processo de internacionalização das pessoas e depois das empresas, o que fará com que o processo seja menos traumático e mais fluido.

Com isso, as pequenas e médias empresas terão acesso a cadeias globais que promovem a racionalização dos custos de materiais e mão de obra e expõem seu produto ou serviço a um mercado consumidor com grande capacidade de absorção e, de quebra, ficam menos dependentes das oscilações do mercado interno.

A internacionalização das empresas atualmente é uma excelente oportunidade de crescimento e até sobrevivência das atividades das pequenas e médias empresas. Felizmente, atualmente contamos com processos e estratégias muito bem definidas para que isso seja feito de forma segura e gradual, sem os grandes riscos e custos reportados por aqueles que tentaram se aventurar em um passado recente.

A empresa que deseja se internacionalizar pode começar com passos bem modestos, como abrir uma conta em banco americano, manter estoque dos produtos em armazém nos Estados Unidos, iniciar a venda de seus produtos pela Amazon ou outro Market place e encontrar parceiros e distribuidores até o momento de efetivamente constituir uma filial nos Estados Unidos.

A internacionalização passou a ser um imperativo de sobrevivência no mundo globalizado.

*Douglas de Castro é professor e advogado head das áreas ambiental e regulatória do Cerqueira Leite Advogados.