RELAÇÃO CHINA-ESTADOS UNIDOS: JANELA DE OPORTUNIDADES?

Douglas de Castro

Após mais de um ano de pandemia, parece haver um certo consenso da necessidade do enfrentamento de problemas globais, a partir de uma abordagem multilateral. O legado institucional e multilateral que nos foi legado desde o final da Segunda Guerra Mundial não pode ser desprezado, pelo contrário, deve ser incentivado. Além disso, reforço a noção da necessidade de uma política externa que leve em consideração as tradições do Brasil, no sentido de preservar as parcerias estratégicas que conquistou ao longo dos anos.

As necessidades de buscar o interesse nacional pelas vias do multilateralismo e preservação de parcerias estratégicas foram realçadas pela pandemia, a partir de uma constatação empírica irrefutável: a interdependência entre as nações e povos.

Com esperança renovada em uma moderação maior do novo Ministro das Relações Exteriores, que possa servir de anteparo e filtro daquele que em última análise conduz a política externa, penso ser necessária a observação de como os dois grandes parceiros comerciais do Brasil se movimentam a partir de dois pontos específicos: a eleição do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden e o crescimento econômico sem precedentes da China.

Comecemos pela China. Em seu 14º Plano Quinquenal revelado em dezembro de 2020, [1]fica evidente a mudança nos investimentos chineses, que passam a privilegiar aqueles voltados ao incentivo de uma economia pautada nos avanços tecnológicos, especialmente do setor privado.

Este é o reconhecimento da China na sua dependência de bens fornecidos pelo eixo Estados Unidos-Japão, como é o típico caso de semicondutores. Com isso, espera-se um acirramento da competição entre a China e Estados Unidos, gerando um impasse neste, pois, sob a ótica governamental este movimento está associado às questões de segurança nacional e de proteção da indústria interna, enquanto para as empresas transnacionais que fazem negócios na China se questionam: podemos ignorar este mercado consumidor gigantesco? É claro que este dilema será sentido nos debates internos americanos e na formulação de sua política externa, que precisamos analisar como será conduzida na era Biden.

Para entender melhor a política americana nos socorreremos da teoria dos sistemas políticos de David Easton, que em síntese estabelece que em um determinado ambiente, o sistema político é abastecido de demandas e apoio que resultam em decisões e ações.[2]

Na era Trump as demandas e apoio vinham principalmente de grupos de interesse que defendiam o nacionalismo econômico e a prevalência de uma postura de segurança nacional, o que resultou principalmente em um ambiente de guerra comercial entre os Estados Unidos e China, demonstrando claramente uma mudança de postura da política externa que deixou de ser voltada para o até então engajamento construtivo, para adotar uma postura de competição estratégica.

A eleição de Joe Biden para presidente dos Estados Unidos trouxe um alívio em termos de uma abordagem mais racional e menos nacionalista. No entanto, em termos da condução da política externa em relação à China, o governo de Biden manteve a postura da competição estratégica adotada na administração Trump.

Ocorre que mesmo ao manter esta postura, além dos grupos de interesses atendidos por Trump, a administração Biden por força do espectro médio ideológico do Partido Democrata, busca atender também os grupos de interesses que congregam os empresários e as coalizões que expressam os valores da sociedade civil, tais como as ONGs, ou seja, uma miríade de interesses que por vezes são contraditórios (como podemos observar do exemplo citado acima dos semicondutores). Com isso, espera-se uma postura mais balanceada dos interesses internos do país e a prevalência de negociações de possam ser conduzidas em foros multilaterais.

No entanto, mesmo com as pressões feitas, principalmente por grupos empresariais, não observaremos no curto prazo uma melhora no “humor” nas relações entre os dois países por conta da postura americana de competição estratégica.

Aliás, foi o que se observou na primeira reunião de alto nível entre os dois países realizada na cidade de Anchorage, estado do Alasca em março deste ano. Em síntese, os oficiais diplomáticos dos dois países trocaram acusações mútuas no sentido de que a China produz instabilidade na ordem global em razão de suas políticas sobre Hong Kong e Mar do Sul, enquanto oficiais chineses acusam os Estados Unidos de hipócritas em questões de direitos humanos pela forma como tratam os negros no país.

Penso que entender esta dinâmica fará grande diferença em como o Brasil poderá se beneficiar no relacionamento com os dois países.

No que diz respeito à China, entender que no médio prazo ela passará a demandar mais de comodities especiais para atender o crescimento econômico com base na tecnologia, que hoje ela depende dos semicondutores do eixo Estados Unidos-Japão. Vamos continuar apostando no “agro é pop” ou vamos nos preparar para vender para a China a partir de uma estratégia mais sólida que leve em conta o valor agregado?

No caso dos Estados Unidos, maior mercado consumidor do mundo, a ampliação da pauta de exportação a partir de um posicionamento mais pragmático e menos ideológico nos ajudaria muito, afinal de contas, abrimos mão de nosso status na Organização Mundial do Comércio em troca de uma indicação para a Organização de Cooperação para o Desenvolvimento (OCDE), ou seja, na prática, um NADA.

Douglas de Castro é advogado no Cerqueira Leite Advogados e diretor do Núcleo de Estudos Avançados em Direito e Política Internacional-Ambra University

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